quinta-feira, 19 de maio de 2011

Verbo 21 - Cultura e Literatura - por Cacilda Póvoas

#texto extraído da revista Verbo 21
"Sexta, dia 15 de abril assisti “Namíbia, não”, de Aldri Anunciação, chorei e ri. Muitos falam reprovando o fim que não é o fim, mas isso é o que eu mais gosto na peça. Não, essa história não acabou. Quando todos acham que é o fim - eis uma história bem fechada - ela se abre, ainda não acabou. Foi só um sonho, mas a realidade se mostra muito mais onírica. Em pleno Rio de Janeiro neva, para que fique tudo branquinho. Obrigada, Aldri, em tempos de declarações nefastas de Bolsonaro é preciso estar atento e forte, é preciso trazer para a pauta a pergunta “O que é uma política de reparação?” Essa situação absurda e surreal, tão absurda para mim, quanto nevar no Rio de Janeiro, é plausível para muitas pessoas. Foi a solução encontrada pelo governo Inglês no século XVIII, mandar de volta para a África os negros de Londres e Liverpol (“Uma Breve História do Brasil”, de Mary Del Priore e Renato Venancio, página 182).
Essa realidade bem urdida por Aldri, que explica essa atitude extrema do governo brasileiro como uma reação a causa que obrigou os cofres público a indenizar os descendentes de escravos, se quebra. Quando tudo parece razoável e o espectador se sente diante de uma realidade que é espelho da sua, neva no Rio de Janeiro e eu ouço o dramaturgo me dizendo, parece mentira, mas é verdade, querem branquear o Brasil. Com isso já estava preocupado Mário de Andrade em 1941, quando escreve para Cecília Meirelles (Cecília e Mário, página 295), pedindo que lhe esclareça “sobre os projetos arianizadores do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda)”.
No século XIX Joaquim Nabuco já estava pensando nessa política de reparação, quando ainda se discutia a abolição da escravatura, como fazer, ou porque não fazer. Mas naquela época o governo brasileiro se preocupou com a indenização dos proprietários de escravos, não com a reparação aos escravizados. Mas mesmo essa indenização não saiu (“Uma Breve História do Brasil”, página 210), Aldri, parece que o Brasil não era muito bom pagador. De uns tempos pra cá, além de ter pago a dívida monetária internacional, o Brasil começa a se movimentar para pagar outras dívidas mais antigas e mais complexas. Mais complexas porque não podem ser traduzidas apenas em números."

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