quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Teatro Brasileiro e Negro é premiado em mais tradicional prêmio literário nacional

Aldri Anunciação na cerimônia de entrega do
Prêmio Jabuti em São Paulo.
Na noite de ontem durante a cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti 2013 na Camara do Livro em São Paulo, aconteceu uma festa paralela para o teatro brasileiro e para a literatura negra brasileira. Estava em primeiro lugar na categoria Literatura Juvenil e podendo receber a menção de Livro do Ano (que foi oferecida a Luis Fernando Veríssimo) o ator e dramaturgo baiano Aldri Anunciação, autor, ator, idealizador e produtor de Namíbia, Não!

Namíbia, Não! que recebeu versão para o teatro em 2011 sob direção de Lázaro Ramos, tornou-se um grande sucesso do teatro brasileiro e vem colecionando prêmios e críticas. Em 2011 recebeu o prêmio FAPEX/UFBA de Dramaturgia em Salvador e em 2012 foi agraciado com o Troféu Braskem de Teatro em Salvador. Barbara Heliodora, temida crítica do teatro brasileiro, disse ao assistir Namíbia no Rio de Janeiro: "Grata contribuição à dramaturgia brasileira e com certeza faz pensar". O crítico e pesquisador alemão Prof. Dr. Henry Thorau em leitura cênica do texto promovida no Lateinamerika Institut da Freie Universität Berlin disse: "Mesmo que Aldri não escreva nenhuma outra obra, ele marcou a história da dramaturgia política no Brasil e inaugurou um novo paradigma."

Parece que Aldri Anunciação acredita que seu texto precisa chegar ao público por várias vias. A versão no palco estimula a leitura do livro que trás mais cenas e todos os textos cortados na adaptação para o teatro. Ao contrário, a literatura pode estimular a ida ao teatro sendo que sua preocupação está sempre em levar os jovens a buscarem fruir algum tipo de arte. Dentro desta perspectiva o premiado autor demonstra acreditar em ações que agregam pensamentos e que tenham força dialética. Esta visão é levada para as questões referentes a condição do negro no Brasil, ao teatro, ao cinema, à política e à qualquer outra instância social possível.  

Isto ficou evidente quando Aldri idealizou e realizou em 2013 a Mostra Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada que venceu o edital de Ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet - FUNARTE/SP e deu foco ao debate sobre a autoria do negro na dramaturgia brasileira. Apesar de ser branco, fiz parte deste projeto que reuniu artistas, críticos e pesquisadores para debaterem a temática. Ficou claro no evento que há uma grande demanda de autoria, mas que não tem visibilidade devido a dificuldade em publicar os livros. Como bem frisou o escritor, pesquisador e ativista paulista CUTI em sua palestra sobre a adaptação de textos literários na dramaturgia negra, "somente os clássicos são adaptados para o teatro. O que é um clássico? É uma obra reconhecida pelos seus pares como tal e oficializada através do mercado editorial, da crítica, da Academia Brasileira de Letras, da Camara Brasileira do Livro, ou seja, pelos meios oficiais (…)". Dessa forma, fica evidente a necessidade de abrir o mercado editorial brasileiro para que jovens autores negros possam ter seus materiais publicados e distribuídos nacionalmente.

Independente do pertencimento do autor a determinada etnia, a premiação de Aldri representa uma possibilidade de ressurgimento da dramaturgia brasileira e, por que não dizer, de um teatro brasileiro. A cena nacional contemporânea conformou-se com a reprodução de tendências e modelos teatrais e performáticos europeus, o mercado é invadido pelos musicais norte-americanos e quando algo com matrizes da cultura brasileira é esboçado cai com raríssimas excessões na folclorização, na exaltação dos estereótipos ou num amadorismo que demonstra a falta de conhecimentos básicos da engenharia cênica que sustenta um espetáculo. O público desiste de comparecer e os artistas fazem teatro para si mesmos e seu grupo de amigos próximos. O sucesso de Namíbia, Não! está no fato de o autor abordar uma temática que parece ter sido já tão discutida, sem cair nas armadilhas que ela oferece. Não copia modelos estéticos e estilísticos, mas, mistura todos eles hibridizando inúmeras referências sem medo. Inverte a expectativa do espectador, que vai a uma peça de teatro com temática negra esperando histórias de navio negreiro, uma família de negros pobres em uma comunidade marginalizada qualquer, lamentações e acusações agressivas, e o coloca diante de dois personagens de classe média alta, muito bem instruídos, que discutem de maneira inteligente e complexa questões de identidade, pertencimento e leis sem nem sequer tocar no tema racismo que se explicita apenas na percepção do espectador. Para completar, insere tudo isto num contexto de comédia com pitadas de drama e muita dialética. Ou seja, estamos falando de um clássico da dramaturgia brasileira que apresentou novos paradigmas para qualquer um que pense em fazer teatro com discussão política no Brasil.

Parabéns Aldri Anunciação, parabéns ao Teatro Brasileiro e Parabéns ao Teatro e Literatura de Autoria Negra no Brasil.


Por Leonel Henckes
Doutorando em Artes Cênicas PPGAC/UFBA e Freie Universität Berlin